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Os cemitérios do futuro vão estar vivos

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26.04.2008, Nicolau Ferreira (in Público Online)

No dia do vosso funeral não fiquem surpreendidos se houver pessoas a assistir a um concerto na esplanada do cemitério. A Europa espera por uma morte mais verde, tecnológica e personalizada. Vamos adiar a morte para ver o funeral de amanhã.

Quando foi a última vez que foi a um cemitério? Funerais não contam. Falamos de visitas para leituras, exposições, concertos de música. Tomar café com amigos ou fazer uma caminhada entre ciprestes altos rodeados por pequenas urnas de cremação. Se quiser, pode olhar para os ecrãs digitais em algumas urnas, onde pessoas são revisitadas em filmes, ideias e memórias. Espaços destes não existem, é por isso que nunca visitamos os cemitérios a não ser nos funerais. Por enquanto.
Morrer nunca deixa de estar na moda, mas os adereços estão a mudar. Os antigos egípcios resistem até hoje mumificados; nós vamos em caixões para debaixo da terra ou somos reduzidos a duas colheres de chá de cinzas. Cerimónias mais ou menos iguais.
No futuro, vai ser diferente. Antes do enterro celebra-se um funeral web 2.0. Internacional, com direito a filmagens, fotografia e Internet. Quem sabe até com o próprio morto a falar, num holograma gravado previamente e preparado para o momento. Pode parecer uma loucura, mas no futuro, dizem os especialistas, cada um vai ter direito a um funeral à sua medida.
Os caixões têm aumentado de comprimento e largura por sermos mais altos e gordos, mas as mudanças vão ter a ver com as crenças e os gostos individuais. Recusar a presença de um padre na hora da morte e preferir uma citação de Camões, Fernando Pessoa ou o hino do Benfica deverá deixar de ser visto como extravagante ou menos digno.
A única regra fixa, no futuro, vai ser um caixão ou uma urna de cremação verdes, não de cor mas de alma. Vernizes aquosos, madeiras degradáveis, tecidos que possam ser comidos pelos bichos, tudo para sermos terra o mais rapidamente possível e sem custos para o ambiente.
Quem preferir voltar imediatamente às cinzas pode escolher uma caixa feita de sal-gema se quiser o mar como destino final (isto já é o presente em algumas agências funerárias portuguesas). Antes de se lançar tudo ao oceano, há que filmar e transmitir a cerimónia para o Second Life. Pode ser no alto de uma falésia, com uma mistura de pessoas reais e virtuais (porque nem todos podem estar presentes) e um único foguete para a despedida.
No futuro, espera-nos uma morte com uma pequena pegada ecológica, um funeral personalizado e um céu cada vez mais digital.
Cremar ou enterrar?
Morrer não é o fim dos nossos problemas, pelo menos a nível do ambiente. A decomposição do nosso corpo origina uma "contaminação microbiológica e por nitratos dos lençóis freáticos", diz Alberto Silva Lima, professor da Universidade do Minho na área das Ciências da Terra.
Para complicar, os vernizes, tecidos sintéticos e madeiras utilizadas nos caixões dificultam a decomposição do corpo. Além disso, as abas metálicas e os pregos acabam, com o tempo, por contaminar a terra e as águas. A médio e longo prazo os metais e os nitratos podem trazer doenças graves às populações.
Este problema foi discutido a semana passada em Lisboa, durante o comité da Federação Europeia de Serviços Funerários (EFFS), que durou dois dias. Paulo Carreiras, presidente da Associação Portuguesa de Profissionais do Sector Funerário (Appf), levou para a conferência o projecto dos caixões ecológicos que evitam parte dos problemas ambientais de hoje. "Temos centenas de cemitérios em Portugal. Utilizam-se urnas nas quais se deita todo o tipo de material que vai contaminar os lençóis freáticos", explica. "Os cemitérios do Alto de São João e de Benfica, em Lisboa, são enormes pólos contaminantes."
A proposta foi normalizada pelo Instituto Português da Qualidade (IPQ) no final de 2006 e está a ser aplicada desde Março de 2007 pela Servilusa, o grupo de agências funerárias do qual Paulo Carreiras é o director comercial. As urnas são de madeira degradável, revestidas por vernizes aquosos. Têm tecidos naturais no interior e as partes metálicas retiram-se antes de os caixões serem enterrados.
O presidente da comissão da EFFS, o italiano Daniele Fogli, diz que hoje, na Europa, "as funerárias estão a fazer o melhor possível para chegar a um funeral ecológico". Para Fogli, que trabalha no sector funerário há mais de 30 anos, a cremação é importante para a sustentabilidade dos cemitérios, pois aumenta o espaço disponível.
Quando o corpo é cremado, ficam em média dois quilos de ossos queimados que depois são triturados, o resto da massa corporal é praticamente vaporizada. "A cremação é uma boa alternativa para os problemas que a decomposição da matéria orgânica traz", diz Alberto Lima.
A cremação também necessita de cuidados. "Há pouco tempo um mergulhador encontrou uma urna de metal no mar", conta Paulo Carreira, descontente. Há alternativas não-poluentes como urnas de sal-gema para as cinzas que vão para o mar, de argila para a terra ou urnas com terra e sementes para quem quiser "reencarnar" numa árvore. Os crematórios também têm filtros para reter as dioxinas libertadas pela combustão do corpo.
Famílias sem raízes
A percentagem de pessoas cremadas decresce do norte para o sul da Europa. A norte, mais de metade das pessoas prefere ser cremada. Nos países mediterrânicos a quantidade de cremações é muito mais baixa, apesar de crescer de ano para ano. "Em França a cremação aumentou de um ou dois por cento para 25 por cento em apenas 20 anos", diz Daniele Fogli.
"A influência da Igreja está a diminuir", acrescenta o francês Jean Neveu, administrador tesoureiro da Federação Europeia de Serviços Funerários. "Em muitos locais da Europa não há padres para o funeral." Além disso, diz, "as famílias estão progressivamente a perder as suas raízes, é por isso que hoje há mais cremações".
Em Portugal, os centros urbanos seguem a tendência. Em 2006, 40 por cento dos mortos em Lisboa foram cremados; no Porto 20 por cento.
As grandes cidades europeias têm um pequeno número de crematórios e cemitérios, o que obriga as pessoas a fazerem deslocações grandes em situações de grande sofrimento. "Num grande crematório não há calor humano, é como uma fábrica", diz Jean Neveu. Por outro lado, a centralização dos serviços origina focos de maior poluição. "Para mim, é melhor descentralizar os crematórios. É melhor para as pessoas e para o ambiente", acrescenta Daniele Fogli.
Morte personalizada
A poluição não é a responsável pela "morte" dos cemitérios portugueses, que estão cada vez mais sobrelotados e descaracterizados. "Os cemitérios de hoje já não são espaços de homenagem, de reflexão, já não há cuidado", diz Paulo Carreiras.
A sobreposição de lajes e túmulos brancos não serve de convite a ninguém. "O culto da memória acontece cada vez menos, hoje as famílias não vão ao cemitério", diz Jean Neveu, referindo-se a pessoas que saltam de país para país, e de famílias espalhadas por diferentes continentes.
Para funerais em que as pessoas chegadas estão dispersas geograficamente não há nada melhor do que a Internet. "Existe uma funerária em Manchester com câmaras ligadas à Internet", explica o espanhol Eduardo Vidal, director-geral dos Serviços Funerários de Barcelona e presidente do Comité de Formação da EFFS. "A família tem a palavra-chave para dar a qualquer outra pessoa que pode ver o funeral, por exemplo na Austrália."
Vidal defende que o serviço funerário tem que ser cada vez mais personalizado. Em que cada celebração contenha os objectos pessoais, fotografias, filmes. Para isso a tecnologia é uma grande ajuda. "Está-se a implementar televisões para personalizar a cerimónia", os familiares podem levar filmes e material audiovisual. "Noutras salas temos incorporado câmaras e só quando as famílias pedem é que se grava."
As casas funerárias têm que abarcar os diferentes credos e hábitos. Em Barcelona, os funerais não-religiosos aumentaram nos últimos quatro anos de dois para seis e meio por cento. "Em qualquer sociedade há uma base do que é o funeral. Mas as famílias são distintas, o funeral tem que se adaptar às famílias."
Paulo Carreira quer adaptar o próprio cemitério às realidades da sociedade contemporânea. "Temos que criar um cemitério, um jardim, um espaço com memórias, cultura, onde possa haver música. Que não seja tétrico."
Um pequeno botão associado a cada cubo é o bastante para um holograma sair de uma das urnas. Aparece uma imagem de alguém, um vídeo, informação do passado. Talvez seja assim que os nossos netos venham a conviver com as nossas memórias. No cemitério, antes de irem a um teatro, uma reunião ou enquanto esperam a chegada de um amigo.

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