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Capa da Playboy superou a anorexia

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Capa da Playboy superou a anorexia
Domingo, 28/1/2007 , 13h26
Geral - Rio de Janeiro
A carioca Andréa Lopes já está mais do que acostumada a surfar em ondas para lá de radicais. Aos 17 anos, tornou-se a primeira surfista profissional a viver do esporte no Brasil. Aos 25, a primeira brasileira a vencer uma etapa do WCT, o cobiçado campeonato mundial. Hoje, aos 33, a única tetracampeã brasileira no surfe conquista outro título: o de primeira portadora de anorexia nervosa a enfeitar a capa da ‘Playboy’. Andréa sofreu da doença por dois anos, entre 1994 e 95, quando chegou a pesar 38 quilos.

"Essa foi a onda mais difícil que eu já dropei na vida. Aquela Andréa Lopes não existe mais, já morreu. O corpo é o reflexo da cabeça e eu sempre procurei ser a saúde em pessoa. Mas, naquela época, cheguei a ter ojeriza à comida. Vivia recusando convites para almoçar e jantar. Hoje em dia, eu me sinto não uma sobrevivente, mas uma vitoriosa", orgulha-se ela, já ostentando 58 quilos harmoniosamente distribuídos em 1,68 metro de altura.
Andréa começou a parar de comer na África do Sul, no comecinho da década de 90, em uma das muitas viagens internacionais que fez por causa do surfe. Hospedada na casa de amigos, recusava toda comida de que não gostava. Na rua, também não se alimentava direito porque não encontrava nada que fosse do seu agrado. Perfeccionista, encontrava tempo apenas para surfar. Nessa época, chegava a surfar por até seis horas ininterruptas com apenas uma fruta no estômago.
"Tinha verdadeira obsessão com o meu corpo e, naquele momento, só conseguia pensar em ser campeã mundial. Todo mundo que vinha me oferecer comida representava uma ameaça para mim. Com a anorexia, você se fecha no seu mundo e não ouve ninguém. Se olha no espelho e acha que está tudo bem. Mas, na verdade, não estava tudo bem. Tanto que parei de menstruar por quase dois anos. Na praia, as pessoas viviam me perguntando se eu estava sofrendo de Aids", relata a surfista.
Em 1994, Andréa embarcou para a Austrália, onde competiria nas primeiras etapas do circuito mundial. Uma forte crise estomacal, porém, fez com que ela fosse internada às pressas. Meses depois, Andréa ainda participou das etapas francesa e norte-americana, mas não teve forças para continuar e se viu obrigada a parar. No dia 1° de dezembro de 1994, data de seu aniversário, finalmente se convenceu de que estava doente. Com a ajuda da família e da terapia, escapou ilesa da doença.
"Tive que abrir mão das competições para me recuperar. Felizmente, minha mãe tomou a frente de tudo. Fiquei louca quando me proibiram de fazer o que eu mais gostava, mas foi justamente isso o que fez com que eu resgatasse a minha força. Hoje, sinto que estou no melhor da minha forma técnica e psicológica. Costumo brincar dizendo que só vou pensar em aposentadoria quando igualar, como surfista profissional, os cinco títulos brasileiros que conquistei como amadora", afirma. Alguém duvida?

Em dois meses, seis jovens mortas

A morte prematura por transtorno alimentar está atingindo proporções nunca vistas no Brasil. Em pouco mais de dois meses, seis jovens brasileiras, entre 14 e 23 anos, morreram vítimas de anorexia e bulimia. A primeira delas foi a modelo paulista Ana Carolina Reston. Aos 21 anos, encerrou a carreira internacional com 1,74 m e o peso de uma criança: só 40 quilos. Apenas três dias depois, outra vítima: a estudante de Moda paulista Carla Sobrado Cassalle, 21 anos. Com 1,70 m, pesava apenas 45 quilos. O pai da moça disse que ela chegou a ser internada 20 vezes para se tratar.
Também não resistiram a estudante Beatriz Cristina Ferraz Lopes Bastos e a manicure Rosana de Oliveira, ambas com 23. Das seis, Cristina é a que pesava menos quando morreu: 34 quilos.
No Rio de Janeiro, a anorexia fez outras duas vítimas: as estudantes Thayrine Machado Bruto, 16, e Maiara Galvão Vieira, 14. Ao contrário de boa parte das vítimas, Thayrine não tinha o desejo de ser modelo. Segundo a mãe, sonhava ser psicóloga "para entender melhor a cabeça do ser humano".

Médico cobra procedimentos urgentes das autoridades de saúde pública

Na última edição do Fashion Rio, durante debate promovido para discutir a anorexia, o gastroenterologista Luiz Mikalauskas afirmou que o Brasil deveria adotar procedimentos urgentes para prevenir a doença. Poucos dias depois, o alerta do médico parece ter surtido efeito não entre autoridades da saúde pública, mas entre os organizadores do São Paulo Fashion Week. Pela primeira vez, o evento de moda só aceitou a participação de modelos com mais de 16 anos. Além disso, as agências deveriam também apresentar laudos médicos atestando as condições saudáveis das modelos.
"As meninas que se dedicam à carreira de modelo não são magras porque querem e sim porque o mercado exige. Se elas são bonitas ou feias, isso pouco importa. O que importa é que as roupas se destaquem naqueles ‘cabides ambulantes’. Mas é preciso que as pessoas entendam que a natureza pode ser generosa com algumas meninas, como a Gisele Bündchen, por exemplo, mas não será obrigatoriamente com todas. Algumas delas só conseguirão ter um corpo daquele às custas de muito sacrifício", ressaltou o médico.
Embora sejam transtornos distintos, Luiz ressalva que, na maioria das vezes, anorexia e bulimia podem ocorrer simultaneamente. Após um longo período sem ingerir comida, a paciente tem um acesso compulsivo e, em seguida, com medo de engordar, induz o vômito. Para ambos os casos, recomenda-se tratamento multidisciplinar, que inclui medicação, psicoterapia e orientação nutricional. Por vezes, a internação é a única saída.
Para a psicóloga Joana de Vilhena Novaes, autora do livro ‘O Intolerável Peso da Feiúra’, o mercado da moda tem a sua parcela de culpa na já famosa ‘ditadura da magreza’ — ao impor regras que dificilmente serão cumpridas pelas modelos —, mas também não é o único vilão da história. Ela defende a tese de que a sociedade, de uma maneira mais ampla, tornou-se lipofóbica. Ou seja, tem aversão à gordura. Segundo ela, os magros são sempre vistos como pessoas belas, saudáveis e bem-sucedidas. Já os gordos não passam de desleixados e preguiçosos e têm falhas de caráter.
"A nossa sociedade moraliza o belo e responsabiliza o feio. É como se só fosse feio e gordo quem quisesse. Não é por acaso que temos o hábito de ver o anoréxico como vítima e o obeso, culpado. Mas a verdade é que os anoréxicos não deixam de comer ou os gordos comem demais porque querem. É uma compulsão. Eles simplesmente perdem o livre arbítrio", explica Joana.

Fonte: Rádio Grande FM

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